08abr2016cecaCom início da greve das escolas estaduais os alunos sentiram a necessidade de sua incorporação nas manifestações. Eles são parte da comunidade escolar e são prejudicados pelas péssimas condições de ensino ofertada pela administração do estado. Como parte deste processo de efervescência na discussão sobre as condições de ensino e a pauta de reivindicações dos trabalhadores em greve os alunos juntaram o útil ao agradável: iniciaram as ocupações das escolas como forma de apoio à greve e de defesa de suas próprias reivindicações. E não é somente o passe livre. Os alunos esperam que as escolas estaduais ofereçam um ensino médio capaz de garantir a necessária apropriação do conhecimento para dar real sequência a sua formação humana.

Há uma insatisfação com a falta de professores, de merenda e de material didático compatível, mas não é só isso. Há também insatisfação com o currículo mínimo. Este reduz as chances de uma formação superior. Por isso não para de crescer o número de escolas ocupadas. De 21 de março até 8 de abril foram ocupadas 17 escolas, em 10 dos 92 municípios. Quase 1% do total de escolas públicas estaduais.

Ensino médio experimental não satisfaz alunos

As escolas chamadas de excelência não escaparam dos questionamentos dos alunos. Pela forte propaganda do governo estadual as “Parcerias Público Privada” (PPP) seriam uma verdadeira panaceia para resolver todos os problemas da educação básica e superior. Porém, com um olhar mais atento, os alunos perceberam que na prática o que prevalece no ensino médio destas unidades é o mesmo currículo mínimo (com ênfase nas disciplinas de Língua Portuguesa, com foco em leitura e Matemática, com foco em solução de problemas) e um programa de treinamento de mão de obra para determinadas empresas. Pior, não há garantia de emprego para todos.

Este tipo de escola já foi experimentado no processo de privatização da educação no Chile. Agora há uma tentativa de reversão e recuperação do patrimônio público pois houve um retumbante fracasso com enorme prejuízo para as atuais e futuras gerações. Aqui estão alguns fatos após cerca de três décadas de “experiência chilena” que, assustadoramente, também tem sido chamada de “milagre chileno”. Criou-se um sentimento geral de frustração e insatisfação surgido não só entre as comunidades escolares, mas, na verdade, na grande maioria da população. Na verdade, a “Revolução dos Pinguins” – uma revolta de estudantes secundaristas impulsionada por reclamações sobre a qualidade e equidade da educação chilena – levou ao mais maciço movimento de protesto social dos últimos 20 anos.

Dilma e Pezão: não façam experiências nem com seus filhos

08abr2016ceca1O Colégio Estadual Chico Anysio, no Andaraí (zona norte do Rio de Janeiro), é “experimental”. É um de nove da rede estadual fluminense no programa Dupla Escola, ou seja, em tempo integral, de 7h às 17h. A instituição também faz parte do programa Ensino Médio Inovador, do governo federal. Mas a principal diferença é que a unidade é um piloto de uma parceria do governo com o Instituto Ayrton Senna e o Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC).

O Instituto Ayrton Senna é uma organização que se diz sem fins lucrativos que atua em parceria com administradores públicos, educadores, pesquisadores e outras organizações para construir soluções experimentais para superar a evasão, o desvio série/idade e a evasão escolar da educação básica. Para isso recebe dinheiro público.

O IBMEC foi criado no Rio de Janeiro, em maio de 1970 (sob a intervenção da ditadura), pela antiga Bolsa de Valores do Rio de Janeiro como entidade independente, sem fins lucrativos, e com ampla autonomia operacional, com duas finalidades, divulgar e fomentar o mercado de capitais e prover recursos técnicos capacitados (leia-se mão de obra barata e especializada).

08abr2016ceca2Mas a sanha privatista não é só de Cabral/Pezão ou Alkmin. Nos últimos seis anos o governo do PT implantou um modelo de educação privatizante, excludente e que servirá aos interesses do mercado. Houve a implementação da Base Nacional Comum Curricular na Educação Básica, a adoção das avaliações como o Pisa, internacional, a Prova Brasil, o SAEB e a adoção de materiais apostilados.

No governo Dilma as teses de instituições como Fundação Ayrton Senna, Instituto C&A, Fundação Telefônica Vivo, Fundação Itaú Social, Instituto Unibanco, e Ação Educativa conseguiram avançar, trazendo a Base Nacional Comum Curricular, que vai a partir de agora, ignorar as especificidades dos municípios e estados e implantar um currículo comum.

Um setor dos alunos do CECA concluiu que esta escola tem como meta real o mero treinamento para melhorar as notas nas provas externas (SAERJ e SAEB) o que dificulta disputar uma vaga nas universidades públicas através do ENEM. Para alcançar melhores notas no ENEM é necessário o esforço de mais um cursinho de treinamento específico.

Ocupar para construir uma alternativa


Os alunos do CECA realizaram uma assembleia e resolveram aderir a manifestação de outros alunos de outras escolas públicas estaduais. A deliberação ocorreu em uma unidade escolar em que os professores e funcionários não participam da greve deflagrada pelos trabalhadores da educação. Ademais, esta é a primeira ocupação de uma unidade escolar na área da Coordenadoria de Ensino Metropolitana VI.
Ou seja, os alunos se enfrentam com seus professores e com a diretoria regional da SEEDUC. Em base a este enfrentamento que o diretor da unidade, Professor Willmann Costa, obedecendo orientações da Metropolitana VI, usou de todos os meios para desmontar e sufocar o movimento.
Houve lançamento de boato sobre uma pretensa nova assembleia estudantil na rua, em frente à escola já ocupada. Os alunos saíram, a polícia militar entrou e os que estavam fora não puderam mais entrar. Diante da permanência de alguns alunos o Sr. Willmann insuflou os pais e responsáveis, com diversos tipos de ameaças, para que os retirassem da unidade. Porém dois alunos maiores de 18 anos ficaram sozinhos na resistência e, heroicamente, garantiram a ocupação.
A solidariedade de trabalhadores da educação e estudantes de várias outras escolas, inclusive de escolas da FAETEC formou uma resistência e arrancou uma primeira vitória da ocupação. A SEEDUC, a PM, os representantes da Coordenadoria Metropolitana VI e o diretor saíram da unidade por volta das 22 horas. A PM escoltou o diretor Costa até a 19ª Delegacia de Polícia Civil. Porém, o delegado de plantão se recusou a abrir registro de ocorrência, uma vez que os fatos narrados não caracterizam crime ou qualquer outra transgressão por parte dos alunos da ocupação.
Após o fim da invasão militar da escola os alunos presentes realizaram uma nova reunião e recompuseram a ocupação com mais de 30 estudantes, sendo a maioria do CECA e mais um representante de cada uma das entidades estudantis presentes na resistência.

Solidariedade à luta dos estudantes

Assembleia dos trabalhadores das escolas pública municipais da cidade do Rio de Janeiro aprovou neste sábado (09 de abril) a coleta de recursos financeiros e gêneros alimentícios para a distribuição nas escolas ocupadas. A direção da Regional III já iniciou o movimento de solidariedade no C. E. Luiz Carlos da Vila, no C. E. Visconde de Cairu e no CECA. Em conjunto com a Regional IV também no C. E. Clóvis Monteiro.

Você também pode se incorporar à campanha. Entre em contato com a Regional para doar o que puder. Traga uma contribuição para assegurar a luta dos (as) estudantes, pais e professores (as) que estão nas ocupações em todo o estado. Todo produto é importante. Os ocupantes precisam de arroz, feijão, macarrão, batata, óleo, abobora, chuchu, melancia, manteiga, farinha, sal, açúcar, massa para bolo, leite, água, papel higiênico, desinfetante, saco plástico, sabão, etc. E não esqueçam os livros para ajudar nas aulas públicas e rodas de leitura.

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