Desempenho ou desenvolvimento?

Aristeo Leite Filho*

A educação é uma prática social que acontece em diferentes espaços e tempos da produção da vida social. É um processo social global. Dele participam todos os indivíduos, durante toda a vida e em todos os lugares da sociedade.

Os conceitos, as concepções e as representações sobre o que vem a ser uma educação escolar de qualidade modificaram-se ao longo da história, sobretudo se forem levadas em consideração as transformações mais prementes da sociedade contemporânea.

A educação escolar tem como função o desenvolvimento de processos formativos por meio dos diferentes níveis, ciclos e modalidades educativas. Sendo assim, o ensino – as escolas, os colégios –, uma das formas de educar, não pode e não tem como separar a família (os pais) da escola nessa tarefa de receber e conviver com as crianças e os jovens, promovendo ações educativas para o crescimento, o desenvolvimento e a ampliação de conhecimentos e saberes das gerações mais novas.

É empobrecedor compreender a escola como lugar meramente de aulas, testes, provas e notas. E mais lamentável é entender que a escola seja sempre uma antessala: a educação infantil, a antessala da alfabetização; o ensino fundamental, a antessala do médio; o ensino médio, a antessala do Enem/Vestibular. Restringir a ação da escola a processos preparatórios pode interferir significativamente na função e no compromisso das instituições de educação formal, estreitando suas propostas – ou seja, aquilo em que elas apostam – cursinhos de adestramentos, treinamentos para o ciclo escolar seguinte. A instrução toma, nessa perspectiva, proporções muito maiores do que a educação de crianças e jovens.

Será que não estamos vivendo hoje uma síndrome coletiva, a do escolarismo? Prevalece para muitos o discurso dos resultados acadêmicos. Discurso este que considera como propósito central da escola apoiar, estimular e facilitar a capacidade que o aluno tem de obter notas e pontuações altas em testes. Qual seria a função da escola? Devem escola e pais estar mais preocupados com os resultados acadêmicos do que com os sujeitos que conseguem esses resultados? Isso não seria a troca do desenvolvimento das crianças e adolescentes por desempenho? O que queremos para os nossos filhos e alunos?

Algumas ideias podem nos ajudar a refletir sobre essas questões. Em primeiro lugar, compreender que educar é mais que ensinar e instruir ou treinar. Depois, que o desenvolvimento humano demanda em seu curso muito mais que as exigências de aprendizagens dos conteúdos escolares focadas na visão estreita dos resultados acadêmicos. Nesse sentido, podemos indagar: como a escola pode assumir uma aposta no desenvolvimento de suas crianças e jovens sem negligenciar a aprendizagem dos conteúdos escolares?

Existem propostas pedagógicas que conquistaram validade e credibilidade ao longo do tempo após muitos avanços e retrocessos. Em sua consolidação, vemos a mediação dos professores nas relações entre os diferentes indivíduos que participam do cotidiano escolar e o compromisso de toda a equipe da escola em acompanhar os processos de transição que são vividos pelas crianças/alunos ao longo da sua trajetória escolar como indicadores que dão consistência ao projeto pedagógico da escola.

As questões que norteiam o processo pedagógico nessas escolas expressam uma verdadeira preocupação em relação à pressão para que todos os alunos de todos os níveis atinjam resultados acadêmicos padronizados. Em suas práticas pedagógicas, estão comprometidos com o objetivo de dar conta de outras questões mais relevantes para o desenvolvimento dos seus alunos. Longe das visões imediatistas da escola preparatória, retomam a cada dia as fundamentações de grandes pensadores do desenvolvimento humano e formuladores de pedagogias coerentes com essas fundamentações.

Em seus projetos, na educação infantil, os eixos do trabalho para o desenvolvimento das crianças são as interações e o lúdico. No primeiro segmento do ensino fundamental a questão central para o desenvolvimento das crianças é de aprender como o mundo funciona. No ensino fundamental do 6º ao 9º ano as ações pedagógicas, atividades e projetos adequados ao desenvolvimento dos estudantes destacam-se pela importância que é dada à aprendizagem social, emocional e metacognitiva. No ensino médio o foco está na formação de estudantes desenvolvidos para viver de maneira independente e autônoma.

Em suas práticas valorizam o discurso do desenvolvimento humano, atentos às grandes diferenças qualitativas existentes nos mundos físico, emocional, cognitivo das crianças e adolescentes, produzindo um cotidiano escolar sensível a essas necessidades diferenciadas. O desenvolvimento humano assegura o desempenho dos alunos em teste, provas e concursos que medem apenas resultados escolares, e o inverso não é verdadeiro.

Fonte: JB de 15 de setembro

*Aristeo Leite Filho é doutor em ciências humanas/educação pela PUC-Rio, professor adjunto da Uerj e diretor da Escola Oga Mitá/RJ.

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