Rio, 06 de março – Por Thais Coutinho*

08mar2014Nossa categoria, majoritariamente feminina, sofre no dia a dia duplamente a exploração. Uma de classe, a outra de gênero. Alguns problemas que enfrentamos no cotidiano de trabalho são reflexos da combinação destas opressões. Muitas vezes o assédio moral e as agressões verbais trazem à tona o machismo da sociedade em que vivemos e do qual as escolas não estão isentas. Nossos baixos salários também são reflexos da desvalorização do “trabalho feminino”, como o da professora, secretária, cozinheira, agente auxiliar de creche, etc. Essas são algumas entre as diferentes formas que a opressão à mulher aparece em nosso cotidiano. Mas é através da violência física que o machismo se apresenta em sua faceta mais cruel.
Entre 1980 e 2010, dobrou o índice de homicídios de mulheres no Brasil, nos colocando na sétima posição mundial no assassinato de mulheres (fonte: CFEMEA), sendo que a violência contra a mulher muitas vezes ocorre na própria residência da vítima. No Brasil, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada, sendo as mulheres negras as principais vítimas. Estes índices retratam que as políticas públicas relacionadas às mulheres ainda são insuficientes e mostram a urgência em avançarmos no combate ao machismo.

Atendimento à vítima

Neste ano a Lei Maria da Penha completará 8 anos. Certamente, sua existência representa um avanço na luta das mulheres contra a violência, mas é preciso avançarmos mais, garantido de fato serviços públicos para as mulheres vítimas da violência e campanhas de conscientização. A Rede Especializada de Atendimento as Mulheres está longe de ser suficiente para atender a demanda que cresce de maneira assustadora. Poucas cidades possuem Casas-Abrigo para as vítimas de violência ou Delegacia de Atendimento à Mulher.
É necessário que haja investimentos governamentais para garantirmos os direitos das mulheres, e para isso, precisamos cobrar dos governos a aplicação destes recursos. No ano passado apenas 16% dos recursos do Governo Federal disponibilizados para programas de combate à violência contra mulher foram utilizados. Tal fato demonstra o descompromisso do governo em garantir os direitos da mulher trabalhadora.
Soma-se a isso outro problema: o despreparo dos agentes públicos para lidar com as vítimas da violência. Muitas vezes, ao fazer a denúncia da violência, a vítima sofre mais uma vez o machismo. Aqueles que deveriam dar o suporte neste momento difícil e garantir o direito da vítima, expõe o machismo que reina em nossa sociedade e ao invés de ajudar a romper, ajudam a perpetuar o ciclo do preconceito. Quantas vezes as mulheres se sentem desconfortáveis em fazer a denúncia a policiais despreparados para atendê-las? Ou quantas vezes as mulheres que fizeram a denúncia acabam sendo mortas pelos seus companheiros denunciados?
Mas, e as nossas escolas? Elas estão preparadas para prevenir a violência contra as educadoras e alunas? E quando a violência ocorre, as unidades escolares estão preparadas para atender suas vítimas?
A ineficiência das políticas públicas de combate à violência contra as mulheres também se reflete no ambiente escolar. Quantas educadoras e alunas são agredidas verbalmente? Quantas de nós não somos vítimas em nosso ambiente de trabalho do machismo? E a escola ainda se mostra insuficiente para debater este tema, para combater o machismo e atender suas vítimas.

Violência nas escolas

Nos últimos dois anos, em nossa regional, tivemos duas educadoras agredidas fisicamente por alunos. Casos em que a CRE ou a administração não conseguiu abafar, mas quantos casos sequer foram denunciados? Tal fato demonstra que precisamos avançar na construção de uma educação emancipadora que rompa com todos os tipos de opressões e que necessitamos cobrar dos governos condições adequadas de trabalho. Salas de aulas lotadas, falta de funcionários, como inspetores escolares, são fatores que colaboram para o crescimento da violência no espaço escolar.
Mas, além disso, é preciso dar o atendimento adequado à vítima. Em ambos o caso nosso sindicato se colocou à disposição das educadoras, não apenas fazendo a denúncia do acontecimento, mas dando o auxílio político e jurídico. Com esses casos, e tantos outros de violência verbal e assédio que acontecem em nossas unidades escolares, percebemos que o despreparo em atender as vítimas de violência não acontece apenas fora dos muros das escolas. Dentro dela, percebemos, muitas vezes, que aqueles que deveriam apoiar a vítima, minimizam o problema, e em alguns casos, chegam até mesmo ao absurdo de negá-la. O governo não cumpre o seu papel de fornecer as condições necessárias para prevenir qualquer tipo de violência no espaço escolar, e dar o apoio necessário à vítima quando esta acontece, para que possamos retornar as nossas funções com segurança.
Diante deste quadro marcado pela opressão, que nós educadoras sofremos dentro e fora dos muros das escolas e creches, as educadoras das nossas redes merecem ser parabenizadas neste dia 8 de março, o dia internacional da mulher da trabalhadora. Parabéns, não simplesmente por resistir diariamente às opressões que sofremos de classe e gênero, mas, por lutarmos contra todos os tipos de opressão!

8 de março: dia internacional de luta

O dia internacional da mulher é um dia da luta das mulheres trabalhadoras. A origem do dia 8 de março como dia internacional das mulheres é as manifestações das trabalhadoras russas por melhores condições de trabalho, de vida e contra a participação da Rússia na I Guerra. Em 1917, no dia 23 de fevereiro (calendário russo) ou 8 de março (calendário ocidental), data na qual era comemorado o dia das mulheres naquele país, as operárias têxteis deixaram o seu trabalho e enviaram delegadas aos metalúrgicos, para que estes apoiassem sua greve. O movimento grevista de massas recebeu apoio dos demais trabalhadores russos, que se somaram a marcha das operárias. Este episódio marcou o início da revolução de fevereiro e demonstrou a importância da mulher na luta por uma sociedade mais justa. Quatro anos depois, realizou-se, em Moscou, a Conferência das Mulheres Comunistas que adotou o dia 8 de Março o Dia Internacional das Operárias, uma justa homenagem as inúmeras mulheres anôminas, que lutaram, arriscando (e em muitos casos perdendo) sua própria vida para a construção de um outro tipo de sociedade, justa e igualitária.

A luta contra às opressões nas escolas

Assim como as trabalhadoras russas, somos milhares de mulheres anônimas, nas nossas escolas públicas estaduais e municipais, que lutamos por melhores condições de trabalho e vida. Como mulheres trabalhadoras, sabemos somar a nossa luta específica (contra o machismo, relacionada à luta contra o assédio moral e toda forma de violência contra mulher) às lutas mais gerais da nossa classe. E, neste 8 de março, as educadoras, que em 2013 demonstraram toda sua disposição em enfrentar os governos, apesar das ameaças e repressão, construindo uma greve histórica, merecem comemorar o seu dia: o Dia da mulher trabalhadora. Tomemos as ruas comemorando o nosso dia com muita luta! Parabéns a todas as funcionárias e professoras de escolas e creches! Parabéns pelo nosso dia! Parabéns pela greve de 2013! Parabéns por continuarmos lutando por uma Educação pública de qualidade!

(*) Thais Coutinho é professora da rede de escolas públicas do Rio de Janeiro e Diretora do Sepe-Regional III.

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