daniela entrevistaSÓ A LUTA MUDA A VIDA – Essa é uma das conclusões a que chegou a professora DANIELA BARBOSA, de Geografia, lotada na EM Manoel Bomfim, da 3ª CRE. Ela responde um inquérito administrativo, supostamente acusada de “induzir” os alunos do 9º ano a boicotarem a Prova Brasil no final do ano passado. Segue abaixo algumas impressões da docente a respeito do que foi o ano de lutas em 2013 e as perspectivas futuras dessa luta da categoria.

Regional III – Como você avalia as jornadas de junho e o Movimento Passe Livre no contexto das mobilizações nas ruas?

Daniela – É importante que as pessoas tenham compreendido que democracia não se limita ao viés eleitoral, mas que envolve ação direta na rua, e que só isso pode pressionar os eleitos para que eles se comprometam com o povo e de fato o representem. Só há democracia com representatividade, e aumentar o preço da passagem significa ir contra os interesses do povo. O que houve em junho abriu a discussão sobre a péssima qualidade do caro transporte público e sobre a falta de mobilidade dos trabalhadores nas grandes cidades. Se a Educação e a Saúde têm que ser gratuitas e de qualidade, por que o Transporte não?

Regional III – De que maneira isso interferiu na greve da rede municipal de Educação do Rio de Janeiro?

Daniela – Deu uma grande injeção de ânimo numa categoria que não fazia greve havia dezenove anos.

Regional III – Como foi a greve em sua escola?

Daniela – Houve mais de 60% de adesão. Houve casos em que o professor paralisou, mas não foi a um ato sequer, ou assembleia, ou seja, não foi para a rua lutar; houve também aqueles que fizeram a greve e foram para a rua, mas, ao fim da greve, descumpriram as deliberações da nossa categoria, como a do boicote às avaliações externas, que dão suporte à meritocracia. Nós tiramos coletivamente este posicionamento político: Sem notas, sem rankeamento. Sem rankeamento, sem gratificações diferenciadas por rendimento. Para resumir, concluo que a grande adesão à greve não é sinônimo de politização da categoria na escola. Ainda temos muito a avançar.

foto daniela passeataRegional III – Os alunos em sua escola tiveram alguma participação na greve? Como foi isso?

Daniela – Os alunos vêm num “crescendo” de participação. No início de 2013 houve uma luta pela climatização. Todos perceberam que o fato de haver uma lei municipal que exigia que as salas de aula das escolas municipais tivessem temperatura de 23º C não bastava para que isso se concretizasse. Fizemos um grande abaixo-assinado em toda comunidade escolar e entregamos na SME, e as obras para a climatização estão em andamento agora. A lição disso é simples: Só a luta muda a vida. Depois houve o fechamento de uma turma de 6o ano. De novo, uma parte dos professores e boa parte dos alunos e responsáveis lutaram para reverter isso. Novamente uma mobilização forte foi realizada na escola e muitos e-mails foram enviados para a SME e para a 3ª CRE. Esse desgaste obrigou que a coordenadora da 3ª CRE fosse à escola e pudemos dialogar. Embora não tenhamos conquistado a reabertura da turma, os professores que iriam sobrar da escola puderam permanecer nela, e suas turmas comemoram por não perdê-los. Isso nos fortaleceu muito emocionalmente. Lutamos e conquistamos. Particularmente, não vejo um argumento sequer favorável a “pessimização” (me recuso a usar a expressão empresarial “otimização”) de turmas. Os alunos e seus responsáveis nos apoiaram muito durante a greve, e mesmo depois. Eles acompanharam, pelos meios de comunicação, a violência policial que sofremos nas ruas, uma grande humilhação.

Regional III – Então, quer dizer que você esteve envolvida em outras lutas, ainda antes da greve, na escola?

Daniela – Sim, claro! Ser professora e não lutar é uma contradição pedagógica. Aprendi isso com a minha professora da 2ª série do antigo primário, na mesma escola, Manoel Bomfim, onde estudei. Ela me ensinou conteúdo, e me ensinou atitude: ela fez a greve de 1979, antes da lei da anistia, ainda em período de ditadura militar. O meu vínculo afetivo com esta escola tem história. Antes de mim, outras pessoas da minha família estudaram nela. Meu pai era um trabalhador assalariado e minha mãe me matriculou na rede pública porque eles sempre acharam que a escola pública tinha que ser boa e para todos. Hoje, como professora desta escola, é claro que luto por ela, mas agora vejo que as lutas geraram um acúmulo de desgaste no governo, e daí a sindicância e o inquérito. Mas isso não me fará recuar nem um passo das lutas que virão.

Regional III – Como você se sente pelo fato de estar respondendo a um inquérito administrativo e sendo acusada por algo que sequer sabe do que se trata?

Daniela – Vejo isso como violência institucional. Depois da violência policial que sofremos nas ruas, temos que enfrentar outro tipo de violência, mais insidiosa, para dentro dos muros da escola, inclusive com assédio moral.

Regional III – Na sindicância aberta pela 3ª CRE tentaram lhe dizer que os alunos não tinham condições psicológicas de optar pelo boicote à Prova Brasil. O que você acha disso?

Daniela – Uma grande incoerência. Se alunos do 6º ano votam para eleger diretores da escola e membros do CEC, se podem ser eleitos para o CEC e para o Grêmio Estudantil, por que os de 9º ano seriam imaturos para um posicionamento político deste tipo? Toda escolha é política, e esta escolha cabia aos jovens em diálogo com suas famílias, conforme argumentei em reunião de responsáveis realizada na escola do dia 22/11/13. Um assessor da CRE estava presente para defender a realização da prova. Coloquei que o que ele defendia era uma visão sobre o exame, mas não era a única existente, e apresentei o contraponto da nossa categoria, que foi muito bem recebido.

Regional III – Você acha que a sindicância, e agora o inquérito, foram manobras da SME e da CRE para formalizarem uma perseguição política a você na escola?

Daniela – Tenho certeza disso. A greve foi uma experiência política e pedagógica fortíssima para mim. Tudo que vivi não me autoriza mais a voltar para a sala de aula reproduzindo coisas: apostilas prontas e com erros (como a própria mídia tradicional mostrou), aplicação de provas que são repetições das apostilas, adestramento de seres humanos para que produzam resultados que gerarão índices. Vários colegas meus voltaram para a escola após a greve dizendo que não aplicariam mais as fatídicas avaliações externas e, pouco a pouco, foram “convencidos” a fazê-lo. Eu cheguei a ouvir que se fosse às salas convencer os alunos a fazer a Prova Brasil, ou seja, se eu abrisse mão do posicionamento político deliberado pela nossa categoria em assembleia, não haveria denúncia à CRE. O preço pelo sossego era muito alto: deixar de ser quem eu sou. Não aceitei e aí estou: respondendo a inquérito.

Regional III – Em relação à direção da sua escola, você se sente desrespeitada em seu trabalho?

Daniela – Sim, porque fico alerta o tempo todo, e é desumano trabalhar desse jeito. O nosso trabalho já não é fácil. Então, é preciso estar tranquilo emocionalmente para que o intelecto funcione bem. No ano passado fui impedida de projetar em aula de reposição de greve o filme Pro dia nascer feliz, sob a alegação de que isso poderia induzir os alunos ao boicote, às vésperas da Prova Brasil. Isso para mim chama-se censura, e também um pouco de paranoia de quem não conhece o conteúdo do filme.

Regional III – Você considera que em sua escola ocorre a gestão democrática? Lá as decisões mais importantes são tomadas pelo conjunto da comunidade escolar?

Daniela – Não. São raros os momentos de encontro, de debate e deliberação. Nem mesmo após a greve isso ocorreu, quando tínhamos que nos reunir para definir um plano de reposição, em respeito à autonomia de cada unidade escolar conforme a própria SME reconheceu. Um colega disse isso certa vez: “Já repararam que raramente votamos?” Avalio que nem mesmo os Conselhos de Classe têm tido grande poder deliberativo, com autonomia de fato do professor. Há uma velada pressão por aprovação, sem critério.

Regional III – Você é membro do Conselho Escola Comunidade da sua escola. Como é participar desse Conselho?

Daniela – Francamente, quando me candidatei e fui eleita para representante do segmento professor, imaginei que pudesse interferir no processo decisório. Hoje vejo que isso era uma ilusão, pois foi justamente em uma reunião de CEC, sem convocação prévia, sem participação dos segmentos aluno e responsável, que eu fui acusada de projetar um filme que induzia ao boicote da Prova Brasil. Isso até chegou a constar em uma ata que, felizmente, foi invalidada após a chegada de alguns colegas da direção do SEPE e da base da categoria, que dialogaram com a direção e a situação da redação equivocada se reverteu. Nesse dia senti na pele o peso do assédio moral. Em síntese, na rede municipal hoje vejo o CEC e o próprio Grêmio Estudantil (se não nasce da organização espontânea dos alunos, mas de uma determinação de cima para baixo) como máscaras de democracia, ou seja, servem mais para legitimar o autoritarismo do governo.

Regional III – Em relação aos seus colegas de trabalho na escola, como eles reagiram ao saber que você responde a um inquérito pelo fato de ter se posicionado sobre as avaliações externas, e ter seguido o que foi deliberado pelo conjunto da categoria em assembléias, durante a greve?

Daniela – Em geral as pessoas não comentam a respeito. É um assunto velado. Houve de tudo um pouco: Professora grevista que avaliou que o nosso posicionamento político contrário à realização de avaliações externas e tornado público por mim desrespeitava o seu trabalho do ano todo de preparação para a Prova Brasil (na minha opinião, uma grande incoerência). Foi a partir daí que começou a perseguição política a mim. Houve professora grevista que aplicou prova da SME de uma disciplina diferente da sua (o professor da disciplina não aplicou o exame por acatar a deliberação da assembleia) e isso ainda contou como reposição de greve para ela. E houve, como já disse, os que a princípio afirmaram que não aplicariam, não corrigiriam, não pontuariam, mas depois “decidiram” fazer. Alguns ainda afirmaram que boicotariam essas avaliações a partir de 2014, o que não aconteceu.

Regional III – Ainda hoje, depois de 2013 de muitas lutas nas ruas, você acha que ainda sofre assédio moral na escola?

Daniela – Sim, ainda sofro. Outro dia pedi a chave da sala de vídeo e uma profissional da escola, num ato falho, me entregou, quase ao mesmo tempo em que veio a chave, um papel para eu preencher o planejamento. Ficou claro que ela só se interessou pelo meu plano quando queria saber sobre o filme que eu ia passar, e eu poderia ter dito tranquilamente, se ela tivesse me perguntado diretamente. O ocorrido me leva a crer que o planejamento só tem valor como controle do nosso trabalho, e não como algo que pode fazer com que a equipe diretiva nos auxilie no dia a dia desse trabalho. Houve também um caso em que a direção da escola anunciou publicamente uma decisão muito impopular para o grupo, me apontando como responsável por esta decisão. Isso me expôs e canalizou para mim grande antipatia de algumas pessoas, embora eu ainda conte com o respeito e a cordialidade de muitos colegas de bom senso.

adesivo07mai2014Regional III – Quais são suas perspectivas para a luta da educação municipal em 2014?

Daniela – As negociações após a greve não avançaram. O GT do 1/3 acontece sem que haja avanços e ao mesmo tempo o governo já prepara um golpe por fora do GT. E o pior: tenho reparado que certas posturas inadequadas a figuras públicas têm sido frequentes nestas reuniões, o que me leva a crer que são propositais, para inviabilizá-las e, consequentemente, impedir os avanços nas negociações. Não é raro que os meios de comunicação noticiem certos “pitis” de membros do executivo. Chegamos a ouvir numa audiência com um subsecretário, que “a greve arranhou as relações pessoais”. Eu desnaturalizo esse comentário. A greve é um direito constitucional. É lógico que ela expressa um conflito. Só partimos para ela quando o diálogo não acontece, ou se esgota. A luta não se resume à greve. Estamos lutando e trabalhando, mas se não há diálogo e avanço na negociação – o único avanço que vejo é do governo sobre os nossos direitos – vamos ter que voltar à greve em 2014.

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Uma resposta »

  1. Fatima Abrantes disse:

    Tive a sorte de conviver com a professora Daniela no início da minha formação na UFRJ. Lamento todos os acontecimentos relatados acima. Sempre soube de sua dedcação à educação e de seu posicionamento político-ideológico firme perante as questões mais inquietantes, sempre revelados com doçura na sua fala. Infelizmente, como a própria Daniela ressaltou, nossa categoria ainda assume posturas contraditórias e omissas. .
    Meu apoio à você Daniela e meu respeito por seu trabalho, por sua dedicação e por sua luta ! Nossa luta!

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